Uma coluna que cultiva a Cultura da Paz.


 

 

 

 

 

 

Carta aberta a um menino palestino, de um mãe israelense
[ por Ana Shulkin - Jerusalém, 25/03/2004 ]

 

(1) Prezado Husam,

Estou olhando para a sua foto no jornal; diz aqui que uma organização terrorista amarrou 8 quilos de explosivos ao seu corpo, e o enviou para explodir em Israel. Eu olho para a sua foto e penso em crianças da sua idade, como as minhas próprias, e como elas falam de todas as coisas que elas querem fazer quando crescerem.

Como você se sente hoje Husam?

A sua mãe deve ter se preocupado, quando você não retornou da escola ontem. Ouvimos que eles te deram 100 shekels para passar sorrateiramente pelo posto de checagem, e depois se explodir entre um grupo de israelenses. Você acha que a sua mãe ficaria contente em receber 100 shekels, ao invés de seu filho? Eu acho que não.

Ouvimos também, que as outras crianças sempre tinham o hábito de zombar e rir de você porque você não ia bem na escola. Você sabe de uma coisa Husam? Crianças, mesmo adolescentes, sempre zombam uns dos outros. Este não é um motivo para você se explodir. Talvez você ache que o Alcorão espera que as crianças sacrifiquem suas vidas em prol da "jihad". Isto é o que os seus professores lhe ensinaram, e é claro que você acreditou no que eles disseram. Eles lhe ensinaram que é importante fazer a guerra contra Israel. Eles lhe ensinaram que é bom matar israelenses. Eles lhe contaram sobre as virgens esperando pelos mártires no paraíso. E principalmente, eles lhe ensinaram a odiar.

Que pena que os professores que deveriam te preparar para a vida, lhe dando as ferramentas necessárias para você se tornar um cidadão de sucesso e produtivo, abusam da sua confiança, e ao invés disso, o preparam para a morte. Nós chamamos a isso "exploração de menores" – mas você não entenderia sobre esse tipo de coisa.

Eu sei que eles lhe ensinaram a confiar nos adultos. Então é difícil te culpar.
 

(2) Mas eu sei também que você pode confiar em sua mãe. Ontem, a sua mãe ficou zangada. Ela se preocupou com você. E ela não concordou com o que você tentou fazer. Ouça a sua mãe, aprenda com ela. Mas não ouça pessoas como seus professores, que querem transformar crianças em bombas. Fique longe destas pessoas. Acredite-me, não há nenhum ideal no mundo, não existe razão nem causa que valha mais a pena morrer, do que por uma criança. Seja lá quem foi que te convenceu a amarrar o cinto com explosivos ao seu peito, certamente não queria o melhor para você. Pessoas assim, não se preocupam em te enviar para a morte com 14 anos de idade, elas não se importam que estão destruindo a sua vida, o seu futuro, a sua chance de crescer, de ter uma família e de ser feliz. Eles não querem que você continue a ouvir música na internet, como você gosta tanto de fazer.

Bem, Husam, eu digo pra você – ouça a sua música. Estude, brinque, se divirta, faça todas as coisas que meninos da sua idade fazem. Continue a brincar no computador. Você deve crescer para realizar os seus sonhos. Vá em frente, e algum dia você poderá fazer o que você quiser, talvez abrir aquela loja de eletrônicos que você mencionou, para consertar rádios e televisões. Você eventualmente até poderá ter sucesso, ensinando outros a consertarem outras coisas que precisam ser consertadas neste mundo.

Talvez você esteja desapontado por não ter ido ao paraíso, aos rios de mel e vinho, e às virgens te esperando, prometidas a você. Se você tivesse obtido sucesso, é difícil dizer se seria como as suas expectativas. Mas uma coisa é certa- se você tivesse obtido sucesso, você teria causado um profundo pesar e dor à sua mãe. E você teria causado um profundo pesar e dor à todos os pais das crianças – de todas as idades – que teriam morrido com você.

Uma delas poderia ter sido eu.

Isto é tudo por agora. Por favor, dê minhas lembranças à sua mãe.

Ana Schulkin, Jerusalém